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Dr. Rafael Oliveira
Especialista em Neurocirurgia e Cirurgia de Coluna Vertebral
GLIOBLASTOMA
Características
Os tumores cerebrais primários dividem-se, basicamente, em dois grupos: os gliais e os não gliais. Dentro do primeiro conjunto, o glioblastoma multiforme é o mais comum e mais agressivo. Na verdade, esse tipo de tumor é o primário mais frequente encontrado no cérebro. Devido a seu crescimento altamente agressivo, os vasos sanguineos vão se rompendo e forma-se, em seu interior, uma área necrótica, desvitalizada. Possui grande potencial de disseminação. Ocorre, geralmente, em pacientes com mais de 50 anos. Trata-se de uma lesão que apresenta, caracteristicamente, rápida progressão e alta resistência terapêutica, tendo, em média, sobrevida de 12 a 15 meses após o diagnóstico. Dependendo da condição clínica alguns pacientes podem ter essa taxa aumentada (Castalia Fernández , Raquel Ciérvide , Ana Díaz, Isabel Garrido 1,2 and Felipe Couñago. Radiotherapy in Glioblastoma Multiforme: Evolution, Limitations, and Molecularly Guided Future Biomedicines 2025, 13(9), 2136; https://doi.org/10.3390 biomedicines13092136).
Com o avanço da medicina, a biologia e a genética tumoral têm sido cada vez mais estudada afim de promover tratamentos mais individualizados e efetivos. E isso também ocorre com o glioblastoma.
Perfil genético do Glioblastoma
Cada vez mais, o perfil genético do glioblastoma tem adquirido relevante destaque pelo fato de que irá influenciar diretamente no tratamento e no prognóstico da doença. A classificação histológica sozinha não possui essa capacidade. Essa análise é feita diretamente na amostra tumoral com sequenciamento, PCR, FISH e imunohistoquímica. Portanto, o primeiro passo é a abordagem cirúrgica da lesão para posterior análise laboratorial. As principais alterações geneticas no glioblastoma são:
1. TERT (transcriptase reversa da telomerase)
Os telômeros são sequências de DNA que estão localizados nas extremidades dos cromossomos. Eles têm por função manter a estabilidade e impedir a degradação cromossômica. A quebra ou o encurtamento dos telômeros desencadeia dano ao DNA o que leva ao envelhecimento ou destruição celular. Já a telomerase é uma enzima que protege os telômeros, impedindo, com isso, o seu encurtamento. O TERT ou transcriptase reversa da telomerase é o gene que produz a telomerase. Ou seja, uma maior atividade do TERT prolongará a vida dos cromossomos e proporcionará divisão celular não patológica. Todavia, a telomerase vai perdendo a sua atividade estando, normalmente, inativa em células adultas. No glioblastoma (principalmente no tipo selvagem) ocorre uma mutação no TERT, impedindo o seu desligamento em células adultas. Isso faz com que as células tumorais passem a crescer de forma indiscriminada, não sendo sensíveis as respostas biológicas de destruição celular. Tal condição torna a lesão cancerígena mais agressiva e com pior prognóstico.
2. IDH (isocitrato desidrogenase)
O gene IDH codifica uma enzima essencial ao metabolismo celular, especialmente para o Ciclo de Krebs. Existem três isoformas principais.
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IDH1
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IDH2
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IDH3
Normalmente, o IDH1 atua no citoplasma e o IDH2 na mitocôndria. Sua atividade ajuda na produção de NADPH e, com isso, contribuem com o metabolismo energético, controle do estresse oxidativo e regulação epigenética normal. Caso ocorra a mutação do IDH1 tal gene não cumpri com suas tarefas fisiológicas normais a passa a produzir substâncias oncometabólicas. Com a mutação do IDH2 ocorre uma inibição da TET e das histona desmetilases. Isso favorece a manutenção de um estado imaturo das células tumorais e a uma hipermetilação do DNA. Os glioblastomas apresentam o IDH, basicamente, de duas formas:
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IDH sem mutação ou “tipo selvagem” – É o tipo mais comum e representa o glioblastoma clássico (90% dos casos). A ausência da mutação não gera a hipermetilação do DNA. Com isso, as células doentes não são eliminadas o que favorece o crescimento tumoral. Gera pior prognóstico.
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IDH mutado – É mais comum em pacientes jovens e está associado a um melhor prognóstico.
3. Promotor de metilação MGMT
O gene MGMT tem por função produzir uma enzima que irá reparar lesões ao DNA. Ele conserta os danos celulares causados por agentes alquilantes como a temozolomida, por exemplo. Isso impede a destruição de uma célula e a sua consequente manutenção. A atividade do gene MGMT é controlada a nível epigenético pela metilação de seu promotor. Metilação nada mais é que ligar ou desligar uma função celular. Geralmente, “metilado” significa inativo ou desligado e “não metilado” ativo ou ligado. Dessa forma, quando um gene está “metilado” ele reduz ou cessa a produção de determinada enzima e quando está “não metilado” ele aumenta a produção de tal substância. No caso do gente MGMT, por exemplo, haverá menos ou mais reparação celular. Assim, quando o MGMT está “metilado” significa na prática que ele está inativo. Ou seja, ocorre uma menor produção da enzima MGMT e as células tumorais perdem a capacidade de reparar o DNA lesado pós quimioterapia, levando a sua destruição e a um melhor controle da lesão. Já quando o gene MGMT está “não metilado” ele encontra-se ativo e isso conduz a uma maior produção da enzima MGMT. Consequentemente haverá maior reparo ao DNA celular e as células tumorais serão menos sensíveis a agentes quimioterápicos. Portanto, uma maior presença do promotor de metilação irá “metilar” o gene e tal fato inativará ou reduzirá a produção da enzima MGMT e, com isso, as células se tornarão mais sensíveis a temozolomida. Isso acarretará aumento da sobrevida de pacientes com glioblastoma. Caso o promotor de metilação esteja ausente o gene não será metilado e isso aumentará a produção da enzima reparadora. As células tumorias serão menos sensíveis ao quimioterápico e a sobrevida será pior. Na prática, o promotor de metilação MGMT está presente em 40% dos casos e prediz uma melhor resposta ao uso de temozolomida e, com isso, uma melhor sobrevida (Miyuki Uno , Sueli Mieko Oba-Shinjo , Anamaria Aranha Camargo , Ricardo Pereira Moura , Paulo Henrique de Aguiar , Hector Navarro Cabrera , Marcos Begnami , Sérgio Rosemberg , Manoel Jacobsen Teixeira , Suely Kazue Nagahashi Marie . 2011 Oct;66(10):1747–1755. doi: 10.1590/S1807-59322011001000013Correlation of MGMT promoter methylation status with gene and protein expression levels in glioblastoma. Clinics (Sao Paulo).
Para resumir a questão genética vinculada ao glioblastoma e sua aplicabilidade clinica:
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Presenção de IDH mutante – Melhor prognóstico.
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Presença de TERT mutado + IDH tipo selvagem – Pior prognóstico.
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Presença de MGMT metilado - Maior resposta a temozolomida.
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Presença de IDH mutante – Maior resposta aos inibidores de IDH (vorasidenib tem sido estudado para esse fim).
Clínica e Diagnóstico
Como a grande maioria das patologias neurocirúrgicas cerebrais, o sintoma mais corriqueiro é a cefaléia. Dependendo do grau de infiltração alteração de consciência e crises convulsivas podem ocorrer. O diagnóstico é firmado, preferencialmente, com uma ressonância de encéfalo. Essa demontra uma lesão com anel e centro necrótico.

Tratamento
O melhor tratamento do glioblastoma é algo bem complexo com ainda pouca resposta na sobrevida. Atualmente, usa-se o protocolo de Stupp que envolve cirurgia seguida de radioterapia e quimioterapia.
A cirurgia tem por principal objetivo a ressecção máxima do tumor com segurança (Mason, W.P.; Harrison, R.A.; Lapointe, S.; Lim-Fat, M.J.; MacNeil, M.V.; Mathieu, D.; Perry, J.R.; Pitz, M.W.; Roberge, D.; Tsang, D.S.; et al. Canadian expert consensus recommendations for the diagnosis and management of glioblastoma: Results of a Delphi study. Curr. Oncol.2025, 32, 207–220). O volume da citorredução redução tem impacto direto na sobrevida. Jusue Torres I et al em meta análise de 2023 concluíram que a ressecçao completa da lesão está associada a maiores taxas de sobrevida (McMahon DJ, Gleeson JP, O'Reilly S, Bambury RM. Management of newly diagnosed glioblastoma multiforme: current state of the art and emerging therapeutic approaches. Med Oncol. 2022 Jun 18;39(9):129. doi: 10.1007/s12032-022-01708-w. PMID: 35716200) sendo essa a mesma conclusão de Brown TJ et al em revisão sistemática de 2016 (Brown TJ, Brennan MC, Li M, Church EW, Brandmeir NJ, Rakszawski KL, Patel AS, Rizk EB, Suki D, Sawaya R, Glantz M. Association of the Extent of Resection With Survival in Glioblastoma: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Oncol. 2016 Nov 1;2(11):1460-1469. doi: 10.1001/jamaoncol.2016.1373. PMID: 27310651; PMCID: PMC6438173). Portanto, ao se estabelecer o diagnóstico, deve-se programar a intervenção cirúrgica eletiva com a maior brevidade possível.
A radioterapia deve ser iniciada geralmente 3–6 semanas após a cirurgia (Mason, W.P.; Harrison, R.A.; Lapointe, S.; Lim-Fat, M.J.; MacNeil, M.V.; Mathieu, D.; Perry, J.R.; Pitz, M.W.; Roberge, D.; Tsang, D.S.; et al. Canadian expert consensus recommendations for the diagnosis and management of glioblastoma: Results of a Delphi study. Curr. Oncol. 2025, 32, 207–220).
E a quimioterapia (temozolomida) deve ser iniciada juntamente com a radioterapia e depois mantida isoladamente por mais um periodo. Yang LJ et al em revisão sistemática de 2014 concluíram que a químio radiação (radioterapia + temozolomida) aumenta as taxas de sobrevida quando comparadas a radioterapia aplicada individualmente (Yang LJ, Zhou CF, Lin ZX. Temozolomide and radiotherapy for newly diagnosed glioblastoma multiforme: a systematic review. Cancer Invest. 2014 Feb;32(2):31-6. doi: 10.3109/07357907.2013.861474. Epub 2013 Dec 14. PMID: 24328555) sendo essa a mesma conclusão de Wang C et al (Wang C, Zhu N, Wang L, An Z. Radiotherapy with temozolomide provides better survival in the newly diagnosed glioblastoma multiforme: A meta-analysis. J Cancer Res Ther. 2015 Oct;11 Suppl 2:C196-201. doi: 10.4103/0973-1482.168184. PMID: 26506875). Athanassiou H et al em ensaio clínico randomizado de 2005 pontuam a vantagem na sobrevida quando se associa radioterapia com a temozolomida mantendo o quimioterápico pós radiação em pacientes com diagnóstico inicial de glioblastoma (Athanassiou H, Synodinou M, Maragoudakis E, Paraskevaidis M, Verigos C, Misailidou D, Antonadou D, Saris G, Beroukas K, Karageorgis P. Randomized phase II study of temozolomide and radiotherapy compared with radiotherapy alone in newly diagnosed glioblastoma multiforme. J Clin Oncol. 2005 Apr 1;23(10):2372-7. doi: 10.1200/JCO.2005.00.331. PMID: 15800329).
O acompanhamento pós tratamento inicial deve ser feito com ressonância na quarta semana e após a cada 2 a 4 meses (Castalia Fernández , Raquel Ciérvide , Ana Díaz, Isabel Garrido 1,2 and Felipe Couñago. Radiotherapy in Glioblastoma Multiforme: Evolution, Limitations, and Molecularly Guided Future Biomedicines 2025, 13(9),2136; https://doi.org/10.3390/biomedicines13092136).
* Tratamento nas recidivas do glioblastoma
* Tratamento cirúrgico para glioblastoma em asa de borboleta
Rafael Oliveira - Médico Neurocirurgião e Cirurgia de Coluna
Porto Alegre - RS
